quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Da Série: "LITERATURA"

CHIMARRÃO DO ESTRIVO
Jayme Caetano Braun

Mate do estrivo bendito,
Amargo que a gente chupa,
Já de poncho na garupa
Para a tropeada do mundo,
Algum mistério profundo
Te revirou do avesso,
Porque és doce no começo
E tão amargo no fundo!

Quantas vezes te chupei
Junto ao cavalo encilhado,
Tendo a china no costado
Tristonha na despedida,
Sem pensar - velha bebida! -
Que ao te golpear sem rebuços,
Ia bebendo os soluços
Daquela prenda querida!

Velho mate carinhoso,
Encilhado de erva mansa,
Quando uma China te alcança,
Olhando quieta pra gente,
Deve pensar, certamente,
Que depois de um beijo longo,
O adeus é como o porongo
Que fica frio de repente!

Mil vezes te amanunciei,
No pingo meio oitavado,
Entre um pedido, um recado,
De uma mana ou de uma prenda...
Pois sempre alguém recomenda
Quando a gente é meio novo
Que não se meta em retovo
Junto aos gaudérios de venda!

E depois quando aparti-me
Do Pago, campeando a sorte,
Eu te chupei, mate forte,
Bem junto do parapeito,
E fui saindo, sem jeito,
Dando rédeas ao gateado,
Mas te guardarei bem cevado
No porongo de meu peito!

Decerto é por isso mesmo
Que quando evoco a Querência
Eu te sinto, com violência,
Nas veias em atropelo,
E até me ouriça o cabelo.
Pois do meu ser primitivo,
Aquele mate do estrivo
Foi o último sinuelo!

E ao bom Deus que é rio-grandense
Sempre peço, enquanto vivo,
Um chimarrão para o estrivo
Quando chegar o meu fim.
E se Ele quiser assim,
Vá destacando uma china
Que lá na Estância Divina
Prepare o mate pra mim!

Chimarrão
Glaucus Saraiva


Amargo doce que sorvo
Num beijo em lábios de prata!
Tens o perfume da mata
molhada pelo sereno
E a cuia, seio moreno
que passa de mão em mão,
traduz no meu chimarrão,
em sua simplicidade,
a velha hospitalidade
da gente do meu rincão.

Trazes à minha lembrança,
nesse teu sabor selvagem,
a mística beberragem
do feiticeiro charrua
o perfil da dança nua
encravada na coxilha,
apontando, firme, a trilha
por onde rolou a História,
empoeirada de glória
da Tradição Farroupilha!

Em teus últimos arrancos,
no ronco do teu findar,
ouço um potro corcovear
na imensidão do pampa!
E em minha mente se estampa,
reboando dos confins,
a voz febril de clarins
repinicando: Avançar!…

Então me fico a pensar,
apertando o lábio assim,
que o amargo está no fim,
que a seiva forte que eu sinto,
é o sangue de “35”
que volta verde em mim!

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